Lakagígar ou a outra vez em que a Islândia incomodou a Europa

O cancelamento de voos esta semana não é a primeira vez que uma erupção vulcânica na Islândia tem forte impacto na vida na Europa. Em 1783, o chão se abriu, derramando lava no Sul da ilha e jogando na atmosfera uma densa coluna de fumaça.  Foram oito meses de intensa atividade, que catalisaram nada mais nada menos do que a Revolução Francesa.

As Crateras de Laki, ou Lakagígar, abriram-se entre 8 de junho de 1783 e fevereiro de 1784. Os gases de flúor e dióxido de enxofre expelidos pela lava mataram metade dos rebanhos de carneiros – praticamente a única carne que os islandeses tinham à disposição, exceto pelo peixe. A agricultura foi arruinada. Calcula-se quem 25% da população da Islândia na época tenha morrido de fome. Milhares de descendentes de vikings desistiram da terra de gelo e fogo e emigraram, principalmente para os EUA e Canadá.

As fissuras do Laki, 200 anos depois

Como agora, o vento soprou a nuvem de cinzas para a Europa. Sol e lua eram vistos como que fora de foco, atrás de uma véu de cinzas, um fog constante. A semeadura da primavera ficou prejudicada pelo clima, os pastos minguaram e vários rebanhos do continente também morreram. Os países mais afetados foram Noruega, Holanda, Grã-Bretanha, França, Alemanha, Itália e Espanha, mas os efeitos foram sentidos inclusive na América do Norte e Norte do Egito. Navios não podiam sair dos portos para fazer entregas. O inverno foi de um rigor ímpar. Sem colheita, sem carne, o povo passava fome. Da revolta com a indiferença da monarquia de Paris nasceu a Revolução Francesa.

Em oito meses, o derramamento chegou a 14 km cúbicos de lava basáltica. Não foi, entretanto, o recorde do Laki. Em 934, o sistema liberou 19.6 km cúbicos de lava.

Lakagígar

As crateas do Laki ficam em uma área extensa e remota no Sul da Islândia. Como é um campo de lava, a única estradinha do local só é aberta nos meses de alto verão – julho e agosto. Isso, se não estiver chovendo. O acesso mais “fácil” é feito pela vila de Kirkjubæjarklaustur, que significa “convento da igreja da fazenda”. Um potente jipe com tração nas quatro rodas e GPS é artigo de primeiríssima necessidade.

Se  trekking você tiver alguns dias para fazer trekking, é possível chegar à região caminhando do Parque Nacional Skaftafell.

Mas se estiver com pressa e ainda assim quiser ver as consequências das erupções no Sul da Islândia, vale ir de ônibus de Reykjavík para Höfn, uma viagem linda sobre a qual já falei aqui. Pra lá da metade do caminho a estrada cruza o “sandar”, palavra islandesa para um deserto de cinzas e rochas trituradas à beira mar. Foi formado por constantes erupções vulcânicas embaixo das geleiras, como esta que acontece em Eyjafjallajökull. O derretimento causa inundação em toda área, os rios glaciais transbordam e a água corre até o mar. Esse violento fenômeno recebe o simpático nome de “jökulhlaup”.

Pintura feita por crianças no muro de uma escola em Höfn

O maior sandar do mundo, o Skeiðarársandur, com 100 quilômetros quadrados, corta ao Sul da ilha a única rodovia islandesa. É uma imensidão de terra negra, quase um deserto.

Skeiðarársandur com o mar ao fundo

Skeiðarársandur com o mar ao fundo

Skeiðarársandur, com a geleira ao fundo

A vastidão do Skeiðarársandur

É uma paisagem mangnífica de se ver pela janela do ônibus. Paisagem que pode estar se formando neste momento no parque Þórsmörk, onde fica a geleira Eyjafjallajökull e seu vulcão.

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